Quando tudo está ao alcance, menos o sentido

O seguinte trecho é de um livro de Heidegger publicado em 1953, com ideias que remontam a 1935.

Leia e veja se é possível não pensar o quanto seu teor é assombrosamente atual.

“Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tóquio puder ser ‘vivido’ simultaneamente; quando tempo significar apenas rapidez, instantaneidade e simultaneidade e o tempo, como História, houver desaparecido da existência de todos os povos; quando o pugilista valer como o grande homem de um povo; quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo — então, justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração, como um fantasma, a pergunta:

Para quê?
Para onde?
E o que agora?”

Martin Heidegger
Introdução à Metafísica

Uma das forças  desse texto de Heidegger pode estar em perceber que a questão não é simplesmente a tecnologia, mas o modo de vida que se constitui quando tudo tende a se tornar disponível.

Disponível para acessar, utilizar, produzir, medir, consumir.

E, nesse movimento, também nós podemos passar a nos compreender segundo essa mesma lógica: pelo que fazemos, produzimos, alcançamos, mostramos, acumulamos.

O tempo, então, se comprime. A espera parece um desperdício. A rapidez ganha valor. O imediato se torna quase natural. E a superficialidade pode adquirir uma certa ligeireza: passamos rapidamente por muitas coisas sem necessariamente permanecermos em alguma delas.

Não se trata de imaginar que possamos escapar da nossa época. Estamos imersos nela. Ela também nos constitui.

Mas talvez possamos perceber quando estamos simplesmente acompanhando seus movimentos e quando algo em nós começa a pedir outra coisa.

Uma pausa.
Uma demora.
Uma pergunta que não precisa ser respondida imediatamente.

Nos colocando em certa dissonância — na possibilidade de não coincidir inteiramente com o modo dominante de viver — temos a possibilidade de preservar espaço para aquilo que não se deixa reduzir à utilidade, à medida ou à disponibilidade.

E justamente aí a pergunta pelo sentido pode continuar a nos interpelar em nossas escolhas:

Para quê?
Para onde?

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